- E disseram que o gelo derreteria? - Vane murmurou olhando pela janela.
Mas ainda não via sinal disso acontecer. Nevava todos os dias e à noite a temperatura caía muito.
Naquele dia, o céu parecia estar mais claro. Havia até mesmo um sol brilhando intermitentemente. Mas o interior do chalé estava congelante.
Aquela primeira noite longe de Zackary tinha sido longa e estranhamente desconfortável, embora ficasse repetindo para si mesma que era sua grande vitória e que, por algumas horas, poderia relaxar.
Mas não tinha sido assim. Seu sono fora agitado.
Ela desceu as escadas na manhã seguinte determinada a pelo menos construir uma ponte rudimentar entre eles. Mas a casa estava vazia, embora a louça da noite anterior tivesse sido lavada e o fogo da lareira já estivesse aceso.
Zac demorou mais de duas horas para voltar, e quando ela perguntou sobre sua ausência, ele a olhou com arrogância.
- Decidi que está na hora de eu me reconectar com o mundo real. Para isso, precisei usar o telefone da loja na vila. - Ele parou. - Algum problema?
- Não - ela negou rapidamente. - Claro que não. Só queria saber.
- Achei que você fosse ficar aliviada.
À tarde, ele saiu novamente. Mas dessa vez Vane tomou o cuidado de não fazer perguntas.
E esse se tornou o padrão dos dias deles.
Ainda faziam as refeições juntos, mas as conversas eram supérfluas e seus comentários sobre a comida, frios e formais. O companheirismo que tinham descoberto tão brevemente desaparecera como se nunca houvesse existido. E ela sentia falta. Os silêncios eram terríveis.
Às vezes lia, outras vezes montava um dos quebra cabeças. Suas noites eram agitadas. Não conseguia relaxar até escutar Zac subir as escadas.
E com muita freqüência ficava simplesmente deitada na cama, olhando para o teto, tentando planejar algum jeito de sobreviver àquele casamento.
A situação entre eles ficava cada vez mais tensa. Na manhã em que o viu colocar as botas e o casaco, sentiu-se incomodada.
- Arrumando-se para seu encontro? - ela perguntou irritada.
Zac olhou para ela de sobrancelhas levantadas..
- Do que você está falando?
Ela balançou os ombros na defensiva.
- Essas saídas diárias que não têm fim. Achei que você tivesse conhecido alguma escocesa magricela.
Ele respondeu friamente:
- Não fale como uma criança. - E partiu.
Ela olhou para o relógio. Não, ela não estava tentando estimar a hora do retorno de Zac. Colocara uma roupa na secadora do sótão e o ciclo tinha provavelmnete terminado. Precisava esvaziar a máquina.
Quando se virou para fazer exatamente isso, ouviu o barulho de algo deslizando e um estrondo alto que quase a matou de susto.
Meu Deus, ela pensou. Perdemos a chaminé!
Colocou o casacão de lã e as botinas que uma vez rejeitara e foi dar uma olhada no lado de fora. Mas não havia um desastre estrutural. Em vez disso, um enorme monte de neve tinha caído do telhado e estava acumulado a alguns metros de distância.
E, de repente, nostalgicamente, recordou-se da última vez em que houvera neve forte em Manor. Tinha 11 anos, ela pensou, e saíra correndo para o jardim para fazer um boneco de neve mais alto do que ela, enfeitando-o com uma boina velha e um cachecol que implorara para Penny lhe emprestar.
Ela adorava olhar pela janela todas as manhãs e vê-lo ali de sentinela, e teve uma verdadeira sensação de perda quando a neve derreteu.
Agora ela olhou para o novo monte de neve e sorriu.
Zac a chamara de infantil mais cedo, ela pensou desafiadoramente. Bem, justificaria totalmente a opinião dele. Porque era inteiramente mais seguro do que ele pensar nela como mulher. Se ele, algum dia, o fizesse novamente...
Ela começou a empilhar a neve, pegando grandes punhados e colocando-os em uma coluna substancial. De início seus dedos ficaram congelados, mas como trabalhava com rapidez o contato com a neve logo os aqueceu.
Nunca seria escultora, ela concluiu, à medida que criava ombros largos e desproporcionais para seu boneco. Sua noção de corpo físico não melhorara desde que tinha 11 anos. Mas pela primeira vez em dias estava se divertindo de verdade. Uma enorme bola de neve se tornou a cabeça, e ela pegou pequenos pedaços de carvão para os olhos e para a boca do boneco de neve, e para fazer uma fileira de botões na parte da frente do corpo, já que não havia chapéu ou cachecol sobrando dessa vez. E, naturalmente, ela não queria que ele se sentisse nu.
Finalmente, terminou o efeito pegando uma enorme cenoura da cozinha para ser o nariz, antes de andar para trás para olhar criticamente sua obra de arte.
- Você está muito bem - ela disse-lhe em voz alta, dando uma risadinha. - Ou, pelo menos, poderia estar...
Ela tirou a cenoura do rosto do boneco de neve e inseriu-a cuidadosamente no corpo, colocando-o propositalmente no ângulo sob a fileira de botões.
De trás dela, Zac disse acidamente:
- Muito artístico.
Ela se assustou. Não percebera a aproximação dele. Virou-se defensivamente, levantando o rosto. Ele estava a alguns metros de distância, inspecionando o boneco de neve sem sequer um esboço de sorriso, as sobrancelhas escuras levantadas. Por um instante, seu olhar frio e sarcástico a mirou também. No entanto, com uma leve sacudida de ombros, ele seguiu para o chalé sem uma palavra.
Enquanto o observava partir, uma raiva repentina cresceu dentro dela. Ela estava se divertindo de forma inofensiva, e ele tinha estragado tudo.
- Idiota sem senso de humor - ela sibilou sob a respiração, antes de pegar mais um punhado de neve, moldar uma bola bem dura e acertá-lo bem no meio das costas.
Zac ficou imóvel. Depois, se virou para encará-la, a expressão pálida de descrença. E ela o encarava de volta, os olhos cintilando desafiadoramente, quando percebeu que estava com vontade de fazer aquilo havia dias.
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